Experiência exterior:
Estudei no colégio Adventista central de Florianópolis do ano de 1996 até 2006, 10 anos em um mesmo colégio, gostava muito de estudar lá, quase todos os meus amigos eram de lá, o clima era de família por parte de professores e funcionários, todos sabiam o meu nome e conheciam meus pais.
Para quem não conhece como funciona o colégio Adventista, existem algumas regras que eles impõem aos alunos do colégio que são da filosofia religiosa deles, por exemplo, eu não podia usar qualquer tipo de jóias, maquiagem ou esmalte forte, se usasse ia para a sala da coordenação onde tinha que tirar as jóias na frente da coordenadora, ou ainda para o caso dos esmaltes davam acetona e algodão para tirar o esmalte na frente deles. Perdi a conta de quantas vezes fui parar nessa sala nesses 10 anos. A fiscalização nos pátios do colégio por parte do monitores, na hora do lanche e por parte dos professores, na sala de aula era acirrada. Sempre andava com a mão no bolso para tentar esconder meu descumprimento das ordens.
Nunca entendi certas regras que eles impuseram a mim, mas mesmo assim, levantava questionamentos acerca dessa questão que apenas ficavam “matutando” na minha cabeça, somente para mim.
A experiência que eu vou contar transcende qualquer uma dessas vaidades que as meninas da minha idade têm na época do colegial, mas ela começa por ai.
No ano de 2006, quando estava cursando o 2º ano do colegial comecei a ter um sentimento muito mais forte perante estes questionamentos que sempre me fiz, não somente pelas regras que nunca entendi, mas também como em diversos colégios o Adventista tem uma feira de ciências que lá era chamada “feira cultural” participei de 10 feiras e em todas, a desorganização sempre foi grande, dessas feiras dependiam as nossas notas e a administração do colégio não ajudava facilitando o nosso trabalho enquanto alunos, por exemplo para fazermos um mural não podíamos simplesmente fazer uma lista do material necessário, passarmos para a professora aprovar para ser comprado pela administração, tínhamos que esperar qual era o material que ia ser disponibilizado pelo colégio e que depois disso ainda ia ser feito uma lista de prioridades para cada sala de todo o colégio, ou seja de todas as séries. Lembro-me bem, nos dias de feira sempre me “virando nos 30” para dar conta de tudo, morria de dor depois de tanto descer e subir escadas procurando material para acabar meu trabalho.
Com tudo isso, minhas reflexões sobre tudo que eu passava ali aumentou demais e assim surgiu a idéia de fazer um grêmio estudantil no colégio, para que todos os alunos pudessem ter mais voz e mais participação e serem realmente ouvidos pela diretoria. Estava muito empolgada com a idéia e de como eu poderia melhora a situação de muitas pessoas com minha atitude em fazer o grêmio estudantil. Uma amiga comprou também a idéia e passou a me ajudar, fizemos o projeto do grêmio com todos os seus objetivos, até com algumas atitudes iniciais para já serem colocadas em prática. Fiz campanha para a divulgação do grêmio nas salas de aula e até foi elaborado um abaixo assinado para ser encaminhado à direção junto com o projeto do grêmio. Mas a direção do colégio demorou muito para dar a resposta de aprovação ou não, e no outro ano (famoso terceirão) eu e minha amiga saímos do colégio, e como mais ninguém assumiu o projeto do grêmio estudantil, ele não vingou.
Reflexões e generalizações (sobre experiência exterior)
A experiência de fazer um projeto de um grêmio estudantil para o meu colégio me despertou, definitivamente, para a importância que tem a continuidade de um projeto. O administrador tem que não apenas refletir sobre as questões, tomar decisões e colocar o projeto em prática, mas também dar condições para que ele se desenvolva e possa ser efetivamente implementado para a melhoria dos processos organizacionais.
A experiência envolveu alguns níveis do processo administrativo, destacando-se a comunicação, autoridade e tomadas de decisão. A comunicação foi feita por parte da campanha pelo colégio incentivando a participação de todos, pude mostrar quais eram as idéias principais do grêmio e como ele poderia estar facilitando nossas vidas como estudantes. Autoridade pode ser vista de duas maneiras, uma eu sendo uma autoridade enquanto elaboradora do projeto e de outra eu estando abaixo da diretoria do colégio, tendo que me subordinar a ela quanto à aprovação do projeto e a espera para isto.
Houveram muitas tomadas de decisões, mais da minha parte, desde a decisão de elaborar o projeto, passando pelos objetivos do grêmio, como ele iria funcionar até a decisão de sair do colégio mesmo sabendo que correria o risco do projeto não ser aprovado por isso.
Podemos fazer algumas reflexões sobre essa experiência, pois toda ela começou quando comecei a refletir, a questionar mais fortemente “porque isso tem que ser assim?”. Segundo Marx, nosso sofrimento às vezes nos é revelado de uma forma tão clara que somos forçados a agir. A crítica leva à ação.
Quando a teoria e a prática se tornam um só, Marx descreve como sendo isso a praxis.Por meio dela nos envolvendo numa reflexão crítica sobre a nossa própria situação e somos levados a agir para aumentar nosso senso de autonomia e responsabilidade, em proveito tanto nosso quanto da sociedade.
Weber viu a expansão dos sistemas burocráticos a todas as esferas da atividade humana como o desenvolvimento singular mais importante do mundo moderno. Os negócios, os governos, as igrejas, os colégios, todos parecem se organizar em torno dos mesmos princípios que enfatizam o exercício da autoridade por intermédio das estruturas hierárquicas. Isso também pode ser observado nessa experiência desde a burocracia e a hierarquização para conseguir material para fazer o mural da “feira cultural” até o encaminhamento do projeto primeiro para a coordenação pedagógica até chegar à diretoria do colégio.
Experiência interior:
Durante todo o processo da experiência por algumas vezes me senti exausta em não ser ouvida, fui criticada também (e não eram construtivas), senti também falta de apoio e empolgação por parte até dos alunos, me sentia muitas vezes sozinha na luta, mas mesmo tendo a noção de que todo o processo demoraria um tempo maior até, (por causa de toda a filosofia do colégio Adventista) nunca me deixei desanimar.
Essa experiência para mim foi muito importante. Sinto-me feliz até hoje por ter tomado a iniciativa de elaborar o projeto, correr atrás de muitas coisas, investir em tempo, em reflexões acerca de como eu poderia estar melhorando a vida dos alunos do colégio.
Essa experiência que eu escrevo foi muito marcante na minha vida também, pois a partir dela percebi que o meu desejo era buscar alternativas para os anseios dos alunos e colocá-las em prática, para assim todos termos um colégio melhor.
Quando tive esse estalo comecei a procurar mais sobre administração pública e hoje estou fazendo esse curso, que por causa de um grêmio estudantil, descobri que tinha a “minha cara”.
O que realmente fiquei desapontada é que o projeto não vingou e, o sentimento de que o projeto do grêmio estudantil poderia ter vingado e só não deu certo por algo que eu fiz ou deixei de fazer, não sai da minha cabeça.
Reflexões e generalizações (sobre experiência interior)
Fiquei desapontada mesmo pela possibilidade de o projeto não ter vingado de alguma maneira por minha causa. Isso tirou a minha paz por um tempo.
Sempre penso que deveria ter tomado alguma ação mais concreta antes de sair do colégio, como deixar uma pessoa responsável pelo andamento do projeto. Se eu tivesse percebido o interesse por parte de alguém em tomar o controle do processo, isso seria feito. Mas daí, outras questões surgem como essa “mas eu poderia ter ido atrás de alguém não é mesmo?”. O que tem me aliviado é que sei que agora as coisas pelo colégio Adventista estão mais organizadas, mesmo sem o grêmio, isso aconteceu quando houve a troca do diretor nesse ano.
Um importante aprendizado que levo dessa experiência para o futuro e como futura administradora pública é que não devemos e nem podemos fazer nada sozinhos. “Unidos somos melhores”. Querer lutar pelos interesses dos alunos através de um grêmio estudantil e sentir-se sozinho na luta tanto por parte da diretoria do colégio (o grêmio só tinha a acrescentar ao colégio) e até por parte dos alunos, foi um tanto desapontador para mim, mas que foi superado pelo sentimento de que dei o meu melhor enquanto estive ali no colégio.